Alto Horizonte vive contradição: enquanto MPF apura contaminação por metais pesados, Lundin Mining recebe selo de sustentabilidade

Inquérito civil apura degradação ambiental, riscos à saúde e possível poluição na Mina Chapada.

Alto Horizonte vive contradição: enquanto MPF apura contaminação por metais pesados, Lundin Mining recebe selo de sustentabilidade
Foto: Divulgação

O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um inquérito civil para investigar possível contaminação com impactos ambientais, sociais e de saúde pública relacionados a um empreendimento de extração de cobre e ouro localizado na zona rural de Alto Horizonte, no Norte de Goiás. O alvo da apuração é a Mina Chapada, operada pela Mineração Maracá Indústria e Comércio S.A. (MMIC), atualmente sob controle do grupo canadense Lundin Mining. 

A abertura do inquérito partiu de uma representação da Associação dos Atingidos e Contaminados por Poluição Resultante de Atividades de Mineradoras no Estado de Goiás (ACPRAM), que representa moradores de propriedades situadas abaixo do fluxo das estruturas de rejeitos da mineradora, com destaque para a Fazenda São Sebastião. Segundo a entidade, a expansão das atividades da empresa teria provocado uma degradação sistêmica na região.

Diante da gravidade dos fatos e dos laudos técnicos apresentados pela associação, o MPF também requisitou à Superintendência Regional da Polícia Federal em Goiás a abertura imediata de um inquérito policial para apurar eventual crime de poluição.

Laudos apontam água imprópria, solo contaminado e metais pesados no sangue de moradores

Dossiês técnicos e laboratoriais anexados ao procedimento do MPF reúnem uma série de evidências:

  • Córregos e rios: análises no Córrego Taquaral identificaram uma pluma de contaminação ácido-metálica ativa, com pH de 4,1 (acidificação severa) e concentrações de alumínio e ferro muito acima dos limites normativos, o que inviabilizaria a vida aquática no trecho.
  • Água para consumo: exames na cisterna que abastece a residência principal da Fazenda São Sebastião indicaram água imprópria para consumo humano, em desacordo com parâmetros de potabilidade do Ministério da Saúde.
  • Solo: amostras registraram acúmulo de metais pesados atingindo até 120 vezes os limites legais, associado à queima de raízes e perda de fertilidade agrícola.
  • Pecuária e agricultura: produtores relacionam a contaminação a mortandade de peixes e à perda de mais de 130 cabeças de gado na região.
  • Saúde dos moradores: exames toxicológicos de sangue teriam apontado bioacumulação de arsênio, chumbo, cádmio, cromo, antimônio e tálio, com moradores relatando dores de cabeça, letargia e agravamento de problemas respiratórios.

O despacho que converteu o caso em inquérito civil é assinado pelo procurador da República Hélio Telho Corrêa Filho e amplia os poderes de investigação do MPF para requisitar documentos, determinar diligências e solicitar perícias.

MPF recomenda fornecimento de água potável e dá prazo de cinco dias à mineradora

Como medida emergencial, o MPF expediu recomendações à Lundin Mining, à Agência Nacional de Mineração (ANM), à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e à Vigilância Sanitária Municipal. Entre os pontos exigidos da empresa estão o fornecimento imediato e gratuito de água potável às famílias afetadas (mineral ou por caminhões-pipa), a perfuração de um poço tubular profundo seguro, a instalação emergencial de sistemas de filtragem e obras para conter o carreamento de sedimentos oxidados das pilhas de rejeito.

O órgão fixou prazo comum de cinco dias úteis para que as partes informem se aceitam as recomendações, sob pena de ajuizamento imediato de ação civil pública com pedidos de liminar e multas diárias. Paralelamente, o MPF requisitou um estudo epidemiológico oficial à Secretaria Estadual de Saúde de Goiás para dimensionar o impacto sobre a população da região.

O MPF ressalta que as medidas seguem um juízo técnico de precaução e não representam pré-julgamento de culpabilidade da empresa antes da conclusão das investigações.

Moradores organizam paralisação de dez horas contra a mineradora

Enquanto o inquérito avança, moradores da região se organizam para protestar. Uma manifestação marcada para 27 de julho pretende bloquear por dez horas o acesso de caminhões à unidade operada pela Lundin Mining. Segundo o organizador Wander Marques da Silva, a mobilização é resposta a anos de denúncias que, na visão dos moradores, nunca tiveram retorno suficiente do poder público.

A reportagem mostra que o conflito já chegou à Justiça: desde cerca de 2021, produtores rurais representados pelo advogado Adriano Alves de Paula e Silva movem ações contra a empresa, pedindo desde indenizações até o eventual reassentamento de famílias. Três laudos técnicos particulares, produzidos pela Ethos Consultoria Ambiental sobre as fazendas São Sebastião, Esmoir e Reinaldo, reforçam o conjunto de provas usado nas ações — mas, como pontua a própria reportagem, são documentos contratados pelos proprietários e ainda sujeitos a contestação e a perícias oficiais.

Procurada, a Lundin Mining afirmou que conduz suas operações em conformidade com a legislação ambiental, mantém monitoramento contínuo e segue colaborando com as autoridades competentes.

Enquanto isso, Lundin Mining recebe selo nacional por transparência em emissões de gases-estufa

Em meio às investigações, a Lundin Mining Brasil anunciou ter recebido o Selo Ouro do Programa Brasileiro GHG Protocol — considerado o mais alto nível de reconhecimento concedido a empresas que adotam transparência na gestão e divulgação das emissões de gases de efeito estufa. A certificação foi concedida às operações da Mina Chapada após a publicação do inventário de emissões da empresa, auditado de forma independente pela Bureau Veritas. 

Segundo o diretor de Sustentabilidade da Lundin Mining Brasil, Rafael Almeida, o resultado reforça o compromisso da empresa com a transparência e demonstra a consistência do trabalho de mensuração e divulgação das emissões. 

Contexto: o que está em jogo em Alto Horizonte

Alto Horizonte é um dos principais polos de produção de cobre e ouro do país, e a economia do município está fortemente ligada à mineração — o que, segundo moradores, também dificulta a mobilização de quem teme represálias econômicas. Até o momento, não há decisão judicial definitiva reconhecendo responsabilidade da mineradora, nem laudos oficiais de órgãos públicos que confirmem integralmente as suspeitas dos moradores — o desfecho do caso dependerá das perícias técnicas e do estudo epidemiológico agora requisitados pelo MPF.

Siga no instagram @jornalvalleonline, ou clique aqui para ficar por dentro de tudo!

Jornal Valle Online - Sempre atualizado nas notícias da região e do Brasil. Dedica-se a informar e engajar a comunidade por meio de reportagens relevantes e precisas. Fique por dentro de tudo: www.valleonline.com.br

 


Fontes: